segunda-feira

Reposição hormonal também em plantas


Quando se olha a história da evolução da ciência no mundo, percebe-se que sempre a prioridade número um foi conhecer o funcionamento do corpo humano (fisiologia). Num segundo momento, a investigação científica volta-se para o estudo dos animais domésticos. E, somente a partir do século XVX começam os estudos sobre a fisiologia vegetal.

Entretanto, os maiores avanços acontecem a partir de meados dos anos 1950, especialmente, com a descoberta da radioatividade e dos mais modernos equipamentos de análise de tecidos vegetais.

Há muitos anos, a medicina conhece a ação fisiológica dos hormônios no ser humano. Sabe-se que nosso crescimento (hormônios somatotróficos), capacidade reprodutiva e sexual (hormônios gonadotróficos, testosterona e progesterona), funcionamento de órgãos e até mesmo nosso humor, depende de hormônios. Uma pessoa estressada produz grandes quantidades de adrenalina, enquanto o bem estar depende da produção endógena de endorfinas, dopaminas e serotonina. De maneira geral, pode-se considerar que uma pessoa saudável tem equilíbrio nutricional e equilíbrio hormonal. Por isso toda a orientação de alimentação e exercícios físicos para produção normal desses hormônios.

Nos últimos anos essa área evoluiu extraordinariamente, com métodos de avaliação do estado hormonal. E, quando há desequilíbrios, os especialistas já indicam a reposição hormonal que é uma estratégia para aumentar a longevidade das pessoas com melhor qualidade de vida.
Nas plantas, todo o desenvolvimento também é regulado por hormônios, desde o nascimento da planta (germinação de sementes ou brotação de estacas, tubérculos, etc.), o crescimento, a reprodução, a produção (frutos, sementes, tubérculos, raízes, etc.) e o envelhecimento e morte é controlada também por hormônios.

Quando comemos um vegetal, como raízes, folhas, frutos ou grãos, na verdade, estamos ingerindo, além de glicídios, proteínas, sais minerais, vitaminas e uma infinidade de outros compostos orgânicos, também esses hormônios. Os hormônios promotores do desenvolvimento são os compostos denominados auxinas, citocininas e giberelinas, que atuam de forma conjunta ou isolada em todos os processos fisiológicos envolvidos com o desenvolvimento vegetal. A síntese desses hormônios é controlada pelos fatores ambientais (luz, temperatura, nutrição, disponibilidade de água, etc.).

Os grandes avanços da biotecnologia, como o desenvolvimento de modernos cultivares transgênicos, somente ocorreram a partir do momento em que foram conhecidos os hormônios promotores do crescimento vegetal e suas concentrações adequadas.

Entretanto, mais do que nos seres humanos e animais, as plantas são muito mais sujeitas aos estresses bióticos causados por pragas e patógenos ou por fatores abióticos como calor, frio, deficiência hídrica, raios ultravioleta, falta de oxigênio nas raízes (compactação ou encharcamento), deficiências nutricionais, dentre outros, a síntese de hormônios promotores é inibida. Então, há a produção de hormônios de estresses, como o etileno e o ácido abscísico (as “adrenalinas” vegetais). Isso causa os desequilíbrios hormonais, afetando o desenvolvimento vegetal. Há uma redução do crescimento de raízes e parte área, como a degradação da clorofila e proteínas, bem como a queda de folhas, flores e frutos. Dessa maneira há uma redução significativa do rendimento das culturas.

Nos últimos 30 anos a utilização de hormônios vegetais no manejo das culturas iniciou na Europa, especialmente, na produção de hortaliças, frutos e flores. A partir dos anos 2000, essas tecnologias passaram a ser utilizada também as culturas produtoras de grãos, inclusive no Brasil. Seu uso no tratamento de sementes ou na parte aérea, em estádios chaves do desenvolvimento, com grande freqüência tem estimulado o crescimento e o aumento do rendimento das culturas, quando utilizados os cultivares de maior potencial de rendimento e a utilização adequadas das demais práticas agrícolas atualmente disponíveis. Especialmente, quando ocorrem estresses nas culturas.

Como os estresses praticamente são incontroláveis pelos produtores, pode-se fazer uma “reposição hormonal” para evitar os efeitos inibidores do etileno e ácido abscísico.
É a natecnologia biológica chegando na agricultura brasileira


Por: por Elmar Luiz Floss.

sexta-feira

O Planeta pede socorro


Na visão do ecólogo inglês James Lovelock, o planeta Terra é um grande organismo vivo que expressa em sua Biosfera uma fantástica biodiversidade. A Mãe Terra, como passou carinhosamente a ser chamada por aqueles que despertaram um legítimo sentimento de reverência ao todo da natureza existente no nosso planeta, está passando por um momento difícil na sua trajetória dentro do tempo e do espaço. Segundo Lovelock, renomado autor da teoria de Gaia, a Terra se encontra num estado análogo ao coma de um ser humano.

Infelizmente a grande maioria dos indivíduos humanos que ocupam posições relevantes nas cúpulas do poder, seja este governamental ou não, como, por exemplo, no âmbito relacionado ao processo de formação de opinião e no de mudanças de comportamentos na sociedade, não estão suficientemente sensibilizados com o notório desequilíbrio homeostático do planeta.

Existem inúmeros dados, obtidos através de instituições compostas por especialistas em questões ambientais, que sinalizam a preocupante e alarmante situação da Terra em relação aos níveis de poluição decorrente da contemporânea "civilização Industrial". Um estudo em curso feito pela entidade ambientalista "Greenpeace" mostra que a concentração de material plástico nas águas dos mares já atingiu níveis elevadíssimos. A poluição por plásticos, que era restrita a alguns pontos conhecidos, hoje está presente de forma generalizada nas águas dos mares de todo o planeta. Sobremaneira nas zonas de convergência de correntes marítimas.

De acordo com o programa ambientalista das Nações Unidas, existem 46.000 fragmentos plásticos em cada 2,5 quilômetros quadrados da superfície dos oceanos, e isso representa 70% da poluição marinha por resíduos sólidos. Uma quantidade fantástica de espécies de mamíferos marinhos e pássaros engolem estes plásticos, certamente supondo serem alimentos.

Já foi encontrada uma baleia morta com 800 kg de plástico no estômago. Muitos plásticos, como o PVC, possuem Estanho em sua composição, sendo esse extremamente tóxico para peixes e moluscos.
No ano passado, o mundo produziu aproximadamente 230 milhões de toneladas de produtos plásticos, cerca de 50 vezes mais do que os números da década de cinqüenta.

Recentemente, pesquisadores da universidade da Califórnia relataram que três quartos das regiões pesqueiras do mundo estão ameaçadas pelo impacto decorrente de atividades antrópicas, humanas. Dados da ONU atestam que 80% das espécies de peixes comercializados estão ameaçadas de extinção pela pesca predatória.

Estudos mais recentes detectam a intensificação de alguns fenômenos e acontecimentos sintomáticos da proeminente deterioração dos oceanos, causada pela interferência do homem. É o caso de: marés vermelhas freqüentes, desaparecimento de mamíferos marinhos, destruição do assoalho marinho. surgimento de zonas mortas e acidificação das águas.
Sabemos e concordamos que as informações qualificadas que denunciam os danos causados ao meio ambiente são de suma importância não apenas para sensibilizar a sociedade e trazer o tema à pauta, mas também para que se abram possibilidades de mobilização social. A partir delas, de informações seguras, é que vêm cobranças populares de medidas e ações, sobre instituições de direito público e privado, quanto ao cumprimento de determinações previstas em leis ambientais. Da mesma forma, vêm cobranças sobre legisladores para que implementem novas leis que de alguma maneira contribuam para a proteção da natureza. Assim, semeia-se melhor qualidade de vida para todos.

Temos a ousadia de afirmar, entretanto, que somente uma profunda mudança na estrutura de consciência do ser humano poderá encaminhá-lo a um novo modo de ser e de agir, e consequentemente resgatar o equilíbrio com Gaia. Não dá para desconsiderar que "Nós somos o mundo".

A sociedade humana no presente momento da história reflete, tal qual um espelho, aquilo que são os indivíduos que a compõem. Se não houver, portanto, uma mudança na estrutura interna de cada um de nós, é provável que o homem aumente ainda mais as suas neuroses e continue a expressar interesses egocêntricos pautados por uma visão unilateral e por ações fragmentadas.

As notícias sobre danos ambientais circulam todos os dias no mundo. Nos ambientes acadêmicos, ecólogos possuem modelos de desenvolvimento sustentável, pessoas de todas as classes, "rodopiam", como peões à deriva, em torno do tema, porém a compreensão apenas intelectual não será suficiente para restaurar a saúde da Terra e tirá-la do coma. Podemos mudar o foco da nossa visão, mas, para tanto, temos que adquirir uma verdadeira comunhão com a natureza, porque é graças a Gaia (Terra) que estamos manifestando as nossas existências individuais. Tivemos nossa gestação no organismo materno, e ela foi para nós uma primeira vida. Acaso envenenaríamos o organismo de nossa Mãe? Integrar-se à consciência viva de Gaia, auxiliar sua recuperação é o desafio da nossa e das futuras gerações, só assim Gaia poderá abrigar muitos de seus filhos num tempo futuro, para que possam também ser aprendizes na existência terrestre e se preparem para novos estágios de vida nas "Muitas moradas de meu Pai".

Por: Maurício Tovar é biólogo, professor e especialista em Holismo.


terça-feira

Macaco Albino entregue ao IBAMA


O Ibama recebeu no último 10 de junho, um macaco-prego albino (foto ao centro) vindo da região de Breves, na Ilha de Marajó. Um morador local entregou o animal voluntariamente ao instituto, depois de resgatá-lo numa casa vazia. O macaco, segundo ele, foi abandonado por quem o mantinha em cativeiro. "É comum espécimes silvestres serem criadas ilegalmente enquanto são filhotes e não dão problema. Depois, quando se tornam adultos e inconvenientes, são descartados em qualquer lugar, como se não tivessem valor", explica o superintendente-substituto do Ibama no Pará, Alex Lacerda, que agora analisa o melhor destino para o raro macaco albino.

Em razão da sua raridade, vários zoológicos se candidataram a receber e cuidar do primata, um macho adulto que foi vítima de maus-tratos ao longo da vida. Além da magreza resultante de anos de alimentação inadequada, o macaco teve a cauda cortada e as presas serradas. "O zoológico ou criador de fauna (autorizado junto ao Ibama) que irá recebê-lo deverá apresentar condições técnicas e legais para manter o animal dentro das melhores condições possíveis", explica Lacerda. Alguns dos que já se habilitaram não cumprem estas exigências. "Muitos têm impedimentos legais, como excesso de lotação para a espécie, ou não cumprem a legislação atual para tamanhos mínimos de recintos, por exemplo", explica o superintendente-substituto.

Fonte: O Liberal Online



Dá pra entender???


As autoridades brasileiras que tratam sobre o meio ambiente jogam ao ar imagens via satélite sobre desmatamentos criminosos em vários pontos do território e, vez por outra, fazem incursões, com utilização da Polícia Federal e do Exército, para multar madeireiras que atuam de maneira ilegal e, em outras, para destruir grandes plantações de maconha e laboratórios de drogas construídos clandestinamente, no meio do mato.

Um trabalho árduo, sem dúvida, e que exige esforço e muita coragem, considerando que as forças-tarefa deslocadas para o meio da selva vão encontrar resistência e, inclusive, de homens bem armados.
O que não se pode entender, no entanto, é que são mostrados mapas televisivos apontando as irregularidades, através de grandes áreas desmatadas ou de grandes plantações de maconha, provando que o crime continua ativo, muito embora o esforço dos pequenos contingentes ser deslocado, vez por outra, para as áreas de conflitos.

Se é possível registrar os estragos de maneira constante via satélite, por que esperar que os devastadores atuem por algum tempo, derrubando extensas áreas de matas ou promovendo grandes plantações de drogas para somente depois chegar ao local, apreender a madeira cortada (ou o que resta daquilo que foi destruído) e multar os responsáveis? Se temos aviões e helicópteros disponíveis, por que, tão logo registrado o problema, não é tomada uma providência no sentido de eliminar, praticamente na raiz, o dano que está sendo causado?

Um estudo do Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia) - matéria publicada pelo Agora na edição de ontem - está alertando para novas derrubadas previstas para a região e concluiu que a devastação vai aumentar entre julho deste ano e agosto de 2012.
Esse levantamento alerta para a provável derrubada de 7.134 quilômetros quadrados de florestas nesse período e diz que a atual taxa de desmatamento medida, entre agosto de 2009 e julho de 2010, foi de 6.451 quilômetros quadrados.

O levantamento do Imazon é tão rico em detalhes que alerta que os maiores riscos de desmatamentos estão ao longo da BR-320 (Transamazônica), na região da Terra do Meio e ao longo da BR-163, que liga o Pará ao Mato Grosso e que os três municípios com maior probabilidade de desmatamentos futuros estão na área de influência do empreendimento: Pacajá, Altamira e São Félix do Xingu.

Ora, se existem estudos a respeito e se pode ser observado por dados colhidos que existem desmatamentos criminosos em larga escala, inclusive, em unidades de conservação e terras indígenas (onde, conforme o estudo, não deveria haver nenhuma derrubada ilegal), por que esperar que o crime seja realizado para, tão somente, após ser tomada providência que, certamente, não oferecerá mais nenhum benefício ao meio ambiente destruído?

Por Moacir Rodrigues

quarta-feira

Conversão verde do planeta custará US$ 76 trilhões até 2050, diz ONU


"Mudança teria o mesmo impacto socioeconômico que a primeira revolução industrial", avaliou subsecretário-geral.
- A completa conversão do planeta ao consumo de energia com tecnologias "verdes" custará US$ 76 trilhões até 2050, segundo o cálculo divulgado nesta terça-feira pelo Conselho Econômico e Social da ONU (Ecosoc).

Nos próximos 40 anos, mais da metade desse valor, equivalente a US$ 1,1 trilhão ao ano, terá que ser investido nos países em desenvolvimento para atender à crescente demanda de alimentos e energia, de acordo com o relatório apresentado em Genebra, onde nesta semana acontece a reunião anual do Ecosoc.

O subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Sha Zukang, ressaltou a necessidade de executar esta conversão "o mais rápido possível" para "pôr fim à pobreza e reverter os efeitos catastróficos da mudança climática".

No entanto, Zukang admitiu que a tarefa é árdua, já que atualmente são investidos apenas US$ 100 bilhões ao ano em tecnologias ecológicas, e lembrou que 30 ou 40 anos é muito pouco tempo para conseguir uma transformação tecnológica de tal envergadura, visto que as principais transições anteriores neste campo ocorreram em um prazo de 70 a 100 anos.

"A mudança teria o mesmo impacto socioeconômico que a primeira revolução industrial", afirmou. Hoje, 90% da energia é gerada através de combustíveis fósseis, responsáveis por 60% das emissões de dióxido de carbono (CO2).

Segundo o relatório, a conversão para as energias verdes é "fundamental" para se chegar a níveis de vida satisfatórios nos países em desenvolvimento, especialmente entre os 1,4 bilhão de pessoas que vivem em extrema pobreza e os 2 bilhões de pessoas a mais que se espera que habitem o planeta em 2050.

Além disso, para o responsável da ONU, a revolução da tecnologia ecológica deverá se basear na cooperação internacional, já que a maioria das novas tecnologias verdes pertence aos países avançados e, portanto, são mais caras para as nações em desenvolvimento.

Zukang considerou que a cúpula Rio+20, que acontecerá no Brasil em junho de 2012, será uma oportunidade para que sejam firmados acordos neste âmbito e para que os países se comprometam a desenvolver políticas em nível nacional que abram caminho para a conversão do planeta às tecnologias verdes.


Fonte: Agência EFE.

terça-feira

Descoberta nova espécie de caranguejo


SAN JOSÉ, Costa Rica - Cientistas da Costa Rica e dos Estados Unidos descobriram uma nova espécie de caranguejo terrestre de grande tamanho que habita a Ilha del Coco, no Oceano Pacífico, e que é endêmica nesse território insular, informou na segunda-feira o jornal La Nación. A nova espécie, batizada Johngarthia cocoensis, foi observada por Robert Perger e Rita Vargas da Universidade da Costa Rica e Adam Wall do Los Angeles County Natural History Museum", destacou.

Segundo os cientistas, a principal característica do J. cocoensis é seu grande tamanho - um macho pode medir 40 cm com suas patas dianteiras estendidas (as fêmeas são menores). Os caranguejos vivem na parte terrestre da ilha, em buracos que cavam no solo e se alimentam predominantemente de ervas e sementes.

Perger explicou ao jornal que esta nova espécie se asemelha, em vários aspectos, ao caranguejo denominado J. malpilensis, que habita as ilhas próximas, como a de Malpelo da Colômbia. "A semelhança com outras espécies do Pacífico ocidental indica que puderam ter cruzado o oceano através das correntes marinhas", adaptando-se ao hábitat até constituirem uma nova espécie
.
A ilha del Coco, em frente ao litoral da Colômbia, mas no mar territorial da Costa Rica, possui um clima tropical úmido e uma grande diversidade de espécies animais.


Da Agência France Press.

domingo

Desmatamento em março e abril aumentou em quase cinco vezes


Apesar desses dados, números de hectares desmatados na Amazônia vem caindo nos últimos anos.

Entender o que se passa na maior floresta tropical do planeta é difícil: esforços para monitorar o desmatamento na Amazônia são restringidos pela concentração de nuvens que impedes que os satélites consigam imagens plenas do que acontece no solo. Os números também costumam variar a cada mês, gerando alertas entre os ambientalistas em um mês, e celebrações triunfais do governo brasileiro, que tenta combater o desmatamento ilegal, no mês seguinte.

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial mostrou um aumento de 473% na desmatamento durante março e abril de 2011 com relação ao mesmo período no ano anterior. Os dados são alarmantes, mas eles também surgem em um contexto de queda no desmatamento.

Provavelmente serão necessários um par de anos até que seja possível dizer com certeza se o novo Código Florestal aprovado pelo governo resultará em uma maior atividade das motosserras na região.

O gráfico acima apresenta as variações anuais nos países de maiores áreas florestais, e os números do desmatamento no Brasil nos últimos 22 anos.



sábado

593 quilômetros quadrados de florestas abatidas


Venho exercitando neste espaço semanal a intenção de oferecer ao leitor uma opção diferente das demais páginas que ele usualmente percorre no jornal diário e está comodamente habituado a encontrar. Algo, modestamente, mais próximo da liberdade literária que a crônica permite, onde às vezes, no meu caso, um pouco de realidade entrecruza a ficção.

Hoje, no entanto, finco o pé na terra para falar de um grande susto. A notícia teve repercussão nacional e internacional (acho que não tanto quando deveria) nesta semana e acho que o título da Agência Estado foi o mais preciso: "Mais do que quintuplicou o ritmo das motosserras na Amazônia".

Desde que comecei a prestar a atenção nas estatísticas regulares de desmatamento na Amazônia, divulgadas depois do que é computado via satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), cada vez que sai um boletim fico mais assustado, porque são centenas de quilômetros de árvores abatidas regularmente e "oficialmente".

E, desta vez, foi muito além da média. No bimestre março-abril, os satélites registraram o corte de 593 quilômetros quadrados de florestas, extensão equivalente a mais da terça parte da cidade de São Paulo. A destruição cresceu 473% em relação aos mesmos dois meses do ano passado. Preste atenção no que é isso.

Não consigo assimilar como esses números são divulgados no mesmo tom de um índice mensal de inflação, de reajuste de aluguel ou de taxa de desemprego. E é inadmissível que isso entre num ouvido e saía no outro como uma notícia banalizada em meio a tantas que chegam, chamam a atenção e logo caem no esquecimento. É preciso que haja uma mobilização mundial para que se interrompa essa destruição descontrolada de um patrimônio natural do planeta. Está aí uma ação para a ONU e também para a Guarda Nacional.

As notícias dão conta de que esse ataque recente teve maior concentração no Mato Grosso. Também que o Ministério do Meio Ambiente criou agora um gabinete da crise, direcionando 500 fiscais para conter essa devastação. E ainda que haveria uma relação desse aumento de corte de árvores com a votação no Congresso do novo Código Florestal, uma vez que proprietários de terras estariam desmatando na expectativa de serem futuramente anistiados pelas reformas no Código.

Todas essas consequências divulgadas após o fato em si, me cheiram a esvaziamento de uma consciência da necessidade de uma decisão mais radical e reversiva desse processo de derrocada da Floresta Amazônica. Quando digo que fico assustado, é o mesmo sentimento que tenho (e acho que muita gente tem), em relação às grandes tragédias que vêm ocorrendo no mundo, como recentemente no Japão, na escola do Rio de Janeiro ou nas enchentes em Nova Friburgo. Só que, no Brasil, como a floresta é muito grande, transcorre paulatinamente, aos olhos de todo mundo, sem que haja uma comoção e uma tomada efetiva de atitude. As conseqüências virão adiante e nem tão distantes assim.

Toda vez que ouço falar que daqui a um tempo não haverá mais água disponível, penso nas gerações que sofrerão esse problema, pois acho que não estarei mais por aqui quando isso ocorrer na abrangência que proclamam. Porque sem luz a gente se vira, mas sem água?!
Cientistas já alertaram que as consequências para o planeta da falta de uma reserva verde como a Amazônia, com toda a sua biodiversidade, serão ainda mais nefastas. E as pessoas parecem encarar isso como aqueles minutos em que a luz cai dentro de casa, você acende a vela (quando tem em casa e encontra), liga para a companhia energética e fica esperando a religação.

Um agravante a mais é que o governo reconhece que os índices divulgados do desmatamento não estão próximos da exatidão. Na última aferição do Inpe, por exemplo, o Pará, Estado que disputa a liderança do ranking do desmatamento, estava sob nuvens, o que impediu o registro dos satélites.

As grandes tragédias têm a capacidade de catalisar a atenção das pessoas, mesmo que momentaneamente. A defesa da Amazônia precisa gerar uma revolução planetária do bem. Essa destruição não pode ser engolida como uma estatística que vai embora ao se apertar o botão de descarga.

Por Júlio Assis.

domingo

Código Florestal


Nas primeiras décadas do século passado, o Brasil era considerado um país essencialmente agrícola.
Hoje, com uma população quadruplicada e com uma expansão industrial reconhecida internacionalmente, continuamos com um grande crescimento em nossa agricultura.
Percebe-se, então, que, no Código Florestal vigente, a agricultura não sofreu nenhum tipo de prejuízo. Até ao contrário, além de continuar atendendo as nossas necessidades, transformou-se em um dos grandes exportadores de grãos e, em especial, de soja.
O que os latifundiários desejam mais? Desejam, pela proposta, mudar o Código Florestal exatamente em pontos fundamentais que protegem florestas, matas nativas, morros, mananciais, mangues e rios.
Vê-se, todos os dias, nos noticiários, o crescimento irracional das devastações e das queimadas de florestas, matas nativas cortadas, arroios e rios desviados, rios poluídos, bem como restingas e margens de rios aterrados. É uma farra em agressões contra a natureza.
Querem terminar com topos de morros que, junto com as várzeas, serão reduzidos de tal modo que nada ficará a preservar. E esse processo já está acontecendo.
Estes desmoronamentos e estas enchentes recentemente acontecidos em Santa Catarina e Rio de Janeiro são uma prova incontestável da intervenção maligna do homem junto à natureza. E aí, acontece isso que vê!
A redução das margens dos recursos hídricos de 30 para 15 metros, com a devastação das margens ciliares, certamente provocará a sua erosão e, certamente, esta será a lógica contínua dos acontecimentos: enchentes e devastações das áreas envolvidas.
Todavia, não é isto que os latifundiários desejam. Desejam, sim, é a diminuição dos percentuais nos índices aplicados em áreas com mata nativa pela Reserva Legal, bem como a isenção de multas aplicadas aos infratores pela queima e pelo corte dessas matas e, principalmente, pela reposição florestal das áreas atingidas, exigidas na proposta atual.
Com isso, esses latifundiários acrescentariam às suas áreas de atividades milhões de hectares oriundos de matas nativa, ainda preservadas por lei.
Vê-se, de pronto, que a barganha pelos índices, junto aos recursos hídricos, em verdade, trata-se de uma grande estratégia para mascarar o desejo maior dos “coronéis dos campos”.
A agricultura sob o regime do atual Código Florestal não está sobre nenhum tipo de ameaça. Quem está sob ameaças com a nova proposta é a Natureza.


Diniz Maciel da Silva

sábado

Aprendizagens intergeracionais na luta pelo Ambiente


Acho imensamente confortante ouvir um adulto dizer que lá em casa se separa o lixo, porque o pequeno a isso o obriga. Também a mim, não me é alheia essa conversa. De facto, em minha casa, o hábito da reciclagem entrou porta adentro quando, num dia de especial inspiração e brincadeira, a prol (em que me insiro), decidiu fazer “greve ambiental”. Resumia-se esta em deixar todo e qualquer lixo reciclável, num local de passagem, e que obrigava os adultos a curvarem-se para apanharem do chão pacotes de leite, papel e sacos de plástico. Havia que fazer “jus” ao nome de família!

Vem este caricato mas eficaz! episódio a propósito de um recente programa de televisão sobre um novo tipo de voluntariado por parte de jovens e que pretende inverter a tendência e mudar o comportamento da população na luta pelo Ambiente que, a cada dia, parece acelerar o seu processo de degradação. Com efeito, os jovens de hoje parecem consciencializar-se da obrigação que todos temos na conservação e na preservação dos recursos ambientais. Esta consciência alarga-se a iniciativas variadas, mais ou menos mediáticas, que a todos parecem alertar. Até o Vaticano se coloca na crista da onda ao investir num projecto de instalação de centenas de painéis solares para transformar 20% da energia consumida no local em energia renovável e ainda estuda a possibilidade de utilização de biomassa para suprir as necessidades energéticas de Castelo Gandolfo!

Até julgaria este meu discurso de conversa fiada se não soubesse que ainda uma grande parte das pessoas que conheço se descuida permanentemente em gestos simples, mas que, ao fim de um ano, conseguem fazer a diferença. A Sociedade consumista e o gasta-deita-fora habituaram-nos, infelizmente, a um estilo de vida pouco saudável e que, dentro de poucos anos, nos causará muitas dores de cabeças (se é que já não causa!). Ainda estamos a tempo de inverter esta maléfica tendência e de cada geração ensinar à outra o que recebeu de bom do seu tempo. Os mais novos têm, de facto, muito a ensinar aos mais velhos e vice-versa.

E porque, como diz o Povo, “Ano Novo, Vida Nova”, proponho 12 medidas simples para 2011, ditadas pelas gerações mais velhas e mais novas:

Os mais velhos ensinam os mais novos:
1) consumir menos carne e não estragar comida;
2) usar um jarro com água em vez de uma garrafa de plástico, na cozinha, para o consumo de água;
3) usar lenços e guardanapos de pano, em vez dos de papel;
4) reutilizar roupas, consertar calçado e comprar bens alimentares (que podem ser comprados avulso), nos mercados tradicionais;
5) nas compras de supermercado, usar sacos de pano em vez dos de plástico;
6) para lavar a loiça, usar as duas bacias, e evitar a água corrente.

Os mais novos ensinam os mais velhos:
1) separar o lixo em casa e depositá-lo nos ecopontos;

2) colocar uma garrafa de 1,5l com areia/água no autoclismo, para poupar água; e usar um jarro, no banho, para depositar água fria, enquanto a quente não vem;

3) depositar os óleos alimentares numa pequena bilha para reciclar (na Barreira, entregá-la na Junta de Freguesia);

4) guardar tampinhas, pilhas e medicamentos fora de validade e entregá-los nos sítios apropriados;

5) usar os versos das folhas em branco para folhas de rascunho;

6) não manter os animais presos.

P.S.
Caro(a) leitor(a), se ainda depois destes e tantos outros conselhos e iniciativas não alterar os seus hábitos, então, é porque lhe falta que a sua prol faça “greve ambiental”… Votos de entradas ecológicas em 2011!

Publicado no http://sustentavel-desenvolvimento.blogspot.com

domingo

O preço do Planeta Terra





Puseram preço à Terra. Finalmente, descobriram quanto ela vale!

5 quatrilhões de dólares.

5.000.000.000.000.000,00 – acho que é isso. Uma parte da fortuna do Tio Patinhas. Muito dinheiro – realmente! – mas, enfim, agora sabemos quanto ela custa.

Agora sabemos quanto custam os mares e seus os peixes. Os corais, as ilhas dos mares do sul, os pores do sol e a luz da Lua cheia. Agora sabemos quanto custam as ondas que banham as nossas crianças e os gigantes de água onde os surfistas deslizam. Sabemos quanto custam os castelos de areia e o Everest, 8.848 metros de rocha e gelo, e os ventos que sopram por lá, o ofego dos deuses.

Sabemos, agora, quanto custa o Ganges, o rio que é a cabeleira de um deus e as savanas africanas com seus leões, rinocerontes e elefantes. Sabemos quanto custam as neves do Kilimanjaro, enquanto existirem, o Fujiwama e o estreito do Bósforo, que na minha meninice chamava de "fósforo", lógico. Agora temos o preço da Antártica, sabemos quanto custam os Andes e a cadeia das Rochosas, o Pampa, os vulcões da Islândia, os rios da Europa, o Mediterrâneo e suas civilizações, e os ursos polares – não é genial saber quanto custam os ursos polares, agora que estão se extinguindo?
E sabemos o quanto custa a Amazônia, o Amazonas e a pororoca! Sabemos quanto custa a Terra e, portanto, entre outras coisas, quanto custamos nós mesmos. Quanto custa a Vida.
A nossa vida.

Será que agora que quantificamos a existência, a beleza, a alegria, teremos uma noção do que estamos perdendo cada vez que uma espécie desaparece, que um vazamento de petróleo dizima uma região?

Se tivermos 5 quatrilhões de dólares, poderemos comprar a nossa vida, quando ela se acabar?

Por Simone Saueressig

terça-feira

O ano das florestas


A Campanha de Valorização do Papel e da
Comunicação Impressa, voltada ao esclarecimento da opinião pública quanto à origem ecologicamente correta das matérias-primas destinadas à indústria gráfica brasileira, é absolutamente alinhada com a celebração oficial de 2011 como o Ano Internacional das Florestas, instituído pela ONU.

Ambas as iniciativas contribuem para a conscientização da sociedade sobre o significado da preservação das matas nativas, da conservação dos recursos naturais, da produção sustentável e do respeito à salubridade do hábitat como fatores condicionantes à reversão do efeito estufa e das mudanças climáticas.

A importância da cobertura vegetal para o sucesso da missão da humanidade de garantir a vida na Terra é evidenciada em dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma): as florestas representam 31% da superfície sólida do planeta, servindo de abrigo a 300 milhões de pessoas e garantindo, de maneira direta, a sobrevivência de 1,6 bilhão de indivíduos e 80% da biodiversidade terrestre.

No Brasil, a cadeia produtiva da comunicação impressa contribui de modo relevante para a preservação desse inestimável patrimônio natural, pois aqui não se cortam árvores nativas para a produção de celulose e papel. Cem por cento desses insumos provêm de florestas cultivadas, que são plantadas para serem colhidas, e que ainda proporcionam um ganho adicional ao meio ambiente: são absolutamente sustentáveis e seu manejo permite manter grandes áreas plantadas, as quais, na fase de crescimento, sequestram na atmosfera expressivo volume de dióxido de carbono. Em nosso País, as matas plantadas com finalidade industrial absorvem um bilhão de toneladas por ano desse gás, que é o principal causador do efeito estufa. Ou seja, a principal matéria-prima da indústria de comunicação gráfica, o papel, é não só reciclável, mas também renovável.

Todos esses valores agregados, informações e dados têm sido difundidos pela Campanha de Valorização do Papel e da Comunicação Impressa, da qual são signatárias 20 entidades de classe brasileiras. Assim, no contexto da celebração da ONU em 2011, é oportuno e pertinente lembrar que, no Brasil, não se derruba um arbusto nativo sequer para que nossas crianças tenham livros e cadernos e possamos ler jornais e revistas, acondicionar produtos em seguras e criativas embalagens de papel-cartão e desfrutar de todos os benefícios com os quais a mídia impressa contempla nossa civilização.

A despeito do advento de novos e cada vez mais sofisticados meios eletrônicos, a demanda da comunicação impressa continuará se expandindo, à medida que as nações, como vem ocorrendo no Brasil, tenham êxito na inclusão econômica, na evolução do PIB e na redução das desigualdades. Seu crescimento, sob essas perspectivas, é inevitável, pois a demanda relativa a jornais, livros, cadernos e revistas reflete os índices de alfabetização, a democratização das oportunidades, a universalização do ensino público e até mesmo a capacidade de se difundir de modo amplo no contexto da sociedade questões de alta relevância, como este bem-vindo Ano Internacional das Florestas.

Por Fabio Arruda Mortara.

domingo

Vitória do Amazonas e do Brasil


Nos dias 6, 7 e 8, o Senado realizou um “esforço concentrado” altamente produtivo. Em uma só das sessões, que se estendeu das 14 horas até quase meia-noite, pudemos aprovar importantes proposições, entre as quais a Proposta de Emenda Constitucional de minha iniciativa prorrogando até 2033 os incentivos da Zona Franca de Manaus; a PEC da Juventude (conferindo aos jovens direitos estabelecidos para crianças e adolescentes), já em vigor; a PEC que suprime a exigência de separação prévia em caso de divórcio, também em vigor; a PEC que prevê a perda de cargo de juiz ou de membro do Ministério Público, sem direito a aposentadoria, a ser apreciada ainda pela Câmara; a PEC da caatinga e do cerrado, que também seguiu para a Câmara; a PEC que eleva para 180 dias a licença-maternidade, ainda pendente de votação em segundo turno; e a prorrogação do Fundo de Combate à Pobreza, criado no governo Fernando Henrique para custear o Bolsa Escola, que no atual governo foi ampliado e recebeu o nome de Bolsa Família.
Destaco especialmente a PEC 17, relativa à Zona Franca de Manaus, cuja prorrogação é necessária, agora, para dar segurança a futuros empreendimentos. Sua aprovação, por unanimidade (59 votos) tem imenso significado histórico para o Amazonas e para mim especialmente, pois foi o coroamento de ininterrupto trabalho a que me dediquei para demonstrar e convencer os colegas a respeito da importância daquele modelo de desenvolvimento regional, não apenas para o Amazonas como para o País. A aprovação, por parte do governo e da oposição, pelos partidos dos mais variados matizes políticos e ideológicos, pelos senadores que representam todos os Estados e o Distrito Federal, representou um grande “sim” dado pelo Brasil.
Ao longo dos anos, por várias vezes tive de sair em defesa da Zona Franca de Manaus, que há muito tempo, por sinal, deixou de ser aquele entreposto comercial, onde as pessoas podiam adquirir, com isenção de impostos, diversos produtos importados, para transformar-se em um dos mais importantes parques industriais do País. Hoje, estão ali instaladas mais de 500 empresas, oferecendo empregos diretos e indiretos a mais de 400 mil trabalhadores. Muita gente que poderia estar derrubando mata para sobreviver hoje mora e trabalha em Manaus. Com isso, o Amazonas está com 98% de sua cobertura florestal preservados. Por isso, propus – é outra PEC, já em exame na Câmara – mudando o nome da Zona Franca para Polo Industrial de Manaus (PIM). Lutei quando o vi ameaçado, por exemplo, pela Lei de Informática ou pela criação de Zonas de Processamento de Exportações, sempre mostrando que interessa ao País manter um parque industrial numa região estratégica (para a segurança nacional) e de interesse para o meio ambiente.
Notava até uma dicotomia: muita gente amava a Amazônia, mas fazia restrições à Zona Franca, como se ali fosse palco de privilégios, de maquiagem, e não se agregasse valor tecnológico, industrial, econômico à produção. Com o tempo a compreensão dos colegas foi aumentando. O que para mim era sonho, hoje é realidade: um parlamentar do Rio Grande do Sul, distante até culturalmente da Amazônia, entende a importância do parque industrial de Manaus.
Uma vitória, pois, do Amazonas e do Brasil!


Senador Arthur Virgílio.

Tráfico de animais silvestres no Brasil




É sabido que o Brasil, país de extensão continental, possui uma das mais ricas biodiversidades do planeta. Estima-se que em nossas terras vivam pelo menos 10% de todas as espécies animais do planeta, incluindo aí aves, insetos, mamíferos, peixes e répteis. E é por causa desta riqueza fabulosa que o País é um dos alvos preferidos dos traficantes de animais silvestres. Que o amigo leitor saiba que o comércio ilegal de animais silvestres é a terceira atividade criminosa mais rentável de que se tem notícia, ficando atrás apenas do tráfico de drogas e armas. Segundo estatísticas, mais de 12 milhões de animais silvestres são retirados de seus habitats todos os anos no Brasil. Aliás, o tráfico é responsável por muitas espécies estarem em extinção. Na verdade, o tráfico de animais silvestres deve ser analisado sob duas óticas: O comércio nacional e o internacional. Infelizmente, no comércio nacional o tráfico conta com a ajuda quase ingênua oferecida pela tradição brasileira de caça e captura de animais selvagens, seja para alimentação ou para domesticação. Ademais, em função dos incentivos financeiros oferecidos pelo mercado negro, a captura de animais selvagens está passando a ser também uma espécie de atividade profissional. É cada vez maior o número de jovens, desempregados, lavradores e pescadores vivendo da captura de animais selvagens, onde ligando-se a caminhoneiros e motoristas de ônibus, transportam estes animais capturados até os grandes centros urbanos para serem vendidos. Já o comércio internacional é mais complexo, mais sofisticado, inclui subornos de policiais e servidores públicos, condescendência de funcionários de empresas aéreas e até assassinato de desafetos. O destino internacional desses animais são a Europa, Ásia e América do Norte, onde chegam para compor coleções particulares, para serem vendidos nas lojas de animais ou comporem o plantel de zoológicos, universidades, centros de pesquisa e multinacionais da indústria química e farmacêutica. Importante mencionar que uma característica do tráfico que mais enoja é a forma de transporte dos animais. Para enganar a fiscalização, a maioria dos animais são transportados de uma maneira degradante. Já foram apreendidos pequenos macacos transportados dentro de garrafas térmicas. Aves são obrigadas a ingerirem bebidas alcoólicas para não chamarem a atenção. Felinos são espancados e ficam sem alimentação por dias para facilitar o manuseio. E por aí vai. Lutar pelo direito à vida e liberdade dos animais é dever de todos nós. Não compremos animais silvestres, pois além de estarmos cometendo um crime, a maioria dos animais não resistem ao cativeiro e acabam morrendo. Se presenciarmos a venda de animais silvestres em feiras livres, lojas agropecuárias, pet shops, depósitos, etc., denunciemos o fato à polícia ou ao IBAMA. Além do mais, cobremos das autoridades públicas que a educação ambiental seja matéria obrigatória nas escolas públicas e privadas. Essas são apenas algumas informações sobre o tráfico de animais silvestres no Brasil. Termino, transcrevendo estas breves palavras do Dr. Louis J. Camuti, veterinário em Nova York: "Jamais creia que os animais sofrem menos do que os humanos. A dor é a mesma para eles e para nós. Talvez pior, pois eles não podem ajudar a si mesmos."

Roosevelt Santos Paiva.

A educação ambiental na perspectiva da paz


A Educação Ambiental é um tema recorrente em meus artigos. Isso porque acre -dito que a compreensão dessa temática ainda ocorre de maneira parcial e por vezes equivocada, denotando um certo reducionismo ecológico, limitando em grande parte à internalização dos valores de conservação da natureza. Essa visão se restringe a destacar alguns dos problemas mais visíveis da degradação ambiental, como a contaminação dos recursos naturais e serviços ecológicos, tais como o manejo do lixo e a deposição de dejetos industriais.Tal inserção, por seu caráter simplificador e restrito, está longe de promover a compreensão da riqueza e diversidade da vida e dos conflitos que ela engendra. Trata-se de uma abordagem romantizada do saber ambiental, em que a natureza é concebida como intocável e a interferência do homem na transformação dos espaços como a mais terrível mácula.
A necessidade de compreender a complexidade da problemática ambiental, bem como os múlti-plos processos que a caracterizam, é um desafio enfrentado por Guattari em sua obra As Três Ecologias de 1990. Nela o autor aborda a questão ambiental para além das concepções naturalistas ao deslindar a constituição do saber ambiental em três dimensões: a do meio ambiente, a das relações sociais e a da subjetividade humana. As três vias da Ecosofia precisam ser compreendidas como distintas, do ponto de visto da concepção teórica, no entanto interdependentes no que tange à ressignificação prática. Isso quer dizer que embora concebidas em domínios distintos — ambiental, social e mental — , estas três dimensões não representam territórios fechados e estáticos. Ao contrário, conservam suas especificidades e capacidade de estabelecer conexões infinitas à medida que os desafios da práxis humana exigirem.
A ecologia mental ou a ecologia da subjetividade humana versa sobre a relação do sujeito com ele mesmo, com seu corpo, com o tempo, com os mistérios da vida e da morte. Implica na busca da ousadia de resistir às tendências homogeneizantes no campo estético e das manipulações político-ideológicas. Quer na vida individual ou coletiva, a ecologia mental procura reapreciar a cultura, a vida cotidiana, o trabalho e o esporte em função de critérios diferentes daqueles do rendimento e do lucro. É a dimensão da paz consigo, da tolerância e admissão das próprias características físicas e heranças étnicas. É o aco-lhimento e cuidado com a própria vida. Despoluir o meio ambiente, mas considerar igualmente a despoluição do próprio corpo. É ensinar a importância da preservação das características de cada bioma, bem como assumir as características étnicas. Aceitar o ambiente em escala macro pode começar “a partir de meios os mais minúsculos”.
A ecosofia social diz respeito à possibilidade de desenvolver práticas específicas na recriação de modos de ser no seio dos diversos grupos sociais. Refere-se à reconstrução das relações humanas em todos os níveis do socius na promoção de um investimento afetivo e pragmático em grupos humanos de diversos tamanhos. É um Eros de grupo que tenta renovar literalmente o conjunto das modalidades do ser-em-grupo, tanto no âmbito dos grupos maiores (sindicato, associações, igrejas instituições educacionais...) quanto no seio da família, do casal, da vizinhança, do contexto urbano, do trabalho etc. No âmbito educacional, a ecologia social pode ser concebida como o ser e o estar com o outro, como um convite à tolerância em todos os seus aspectos. A educação ambiental precisa abarcar também a esfera da valorização da paz como bem coletivo e essencial à reconquista da confiança na humanidade. Não há meio para o alcance de outras opções de desenvolvimento ambiental se os homens não forem capazes de se solidarizar primeiramente com seus pares. Ainda é de se admirar que ONG’s gastem mais com a campanha de salvamento das baleias azuis do que a ONU para minorar a fome e a miséria na África. Como falar de respeito à natureza se o respeito ao próximo não é cultivado no espaço escolar? É inconcebível que a preservação da natureza ande na contramão da preservação da vida humana.
O princípio particular à ecologia ambiental é a consideração da centralidade das intervenções humanas na garantia do equilíbrio natural. A ecologia ambiental acredita na iminência de qualquer tipo de catástrofe, mas crê, igualmente, nas evoluções flexíveis que podem abrandá-la. Na dimensão ambiental, entram em cena não apenas a defesa da natureza, mas a luta em prol da qualidade de vida, da sustentabilidade, dos direitos e da democracia ambiental na reapropriação social da natureza. É conceber a natureza em diálogo com a cultura, pensando “transversalmente” as interações entre ecossistemas, mecanosfera, e Universos de referência sociais e individuais (Guattari, 1990).
Essas três vias estão embaralhadas na tripla visão ecológica. Uma educação ambiental, no sentido integral e holístico do termo, precisa encarar o desafio de educar na perspectiva ético-política da ecosofia. Isso significa ampliar os horizontes de compreensão da Educação Ambiental no sentido de empreeender uma jornada que enfatize os procesoss de ensinar a aprender, voltados para o cultivo da paz em seus mais variados domínios: a paz consigo, a paz com o outro e a paz com a natureza. Ênfase e esforço que culminarão na lenta, porém gradativa conquista de modos de vida mais singulares, ambientalmente justos e socialmente equilibrados.


Márcia Carvalho

Sociedade sustentável


A concepção existente do meio ambiente no passado era de que os recursos naturais eram ilimitados, existiam em abundância, motivo pelo qual o homem não se preocupava com a questão ambiental que era sinônimo na maioria das vezes de progresso.

A população via a natureza como um depósito, onde se retira tudo que lhe parecia interessante, deixando no lugar lixo, os resíduos do processo de produção.

O grande número de catástrofes ambientais serviu para demonstrar a importância do meio ambiente para a humanidade. De nada adianta o desenvolvimento e progresso econômico se a vida em nosso planeta corre perigo.

A população começou a perceber que o planeta possui recursos finitos e se não mudarmos a concepção de que ainda, apesar de tantas catástrofes, temos nossa sobrevivência ameaçada.

O mundo somente abre os olhos para questão ambiental na década de 70, impulsionado pela Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiental Humano, realizada em Estocolmo, na Suécia, em 1972.

A primeira Constituição brasileira de 1824 não fez qualquer menção na esfera ambiental. A visão existente era somente econômica.

A Constituição de 1934 trouxe dispositivos de proteção às belezas naturais, patrimônio histórico, artístico e cultural. A Constituição de 1937 trouxe preocupação com relação aos monumentos históricos, artísticos e naturais.

A Carta de 1946, além de manter a defesa do patrimônio histórico, cultural e paisagístico, conservou a competência legislativa da União sobre saúde, subsolo, floresta, caça, pesca e águas.

Na Constituição de 1967, semelhante eram os dispositivos presentes; observa-se que pela primeira vez o vocábulo “ecológico” foi utilizado em alguma Constituição.

A Constituição Federal Brasileira de 1988 traz grandes inovações na questão ambiental, podendo ser denominada de “ Constituição Verde”. Diferentemente da forma que as Constituições anteriores abordavam o tema, o Constituinte de 1988 procurou dar efetiva tutela ao meio ambiente, trazendo mecanismos para proteção e controle ambiental.

A Carta Magna de 1988 trouxe como direito fundamental a fruição de um meio ambiente saudável e ecologicamente equilibrado.

A Lei Fundamental reconhece que os problemas ambientais são de vital importância para a nossa sociedade, seja porque são necessários para atividade econômica, seja porque considera a preservação de valores cuja mensuração é extremamente complexa.

Na Constituição Federal de 1998 são 22 artigos que, de uma forma ou de outra, relacionam-se com o meio ambiente, além de parágrafos e incisos diversos.

O artigo 225 da Lei Fundamental de 1998 é o epicentro do sistema constitucional de proteção ao meio ambiente e é nele que está muito bem caracterizada e concretizada a proteção do meio ambiente como um elemento de interseção entre a ordem econômica e os direitos individuais.

O artigo 225 da Constituição Federal expressa em seu caput: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

O meio ambiente ecologicamente equilibrado é dever e direito fundamental de toda coletividade. Trata-se, pois, de direito difuso, enquadrando-se como direito de terceira geração.

O Supremo Tribunal Federal, através do voto do ministro Celso de Mello (relator), conceituou o direito ao meio ambiente “como um típico direito de terceira geração que assiste, de modo subjetivamente indeterminado, a todo gênero humano, circunstância essa que justifica a especial obrigação que incumbe ao Estado e à própria coletividade de defendê-lo e de preservá-lo em benefício das presentes e futuras gerações.

Desse modo, acredito que o poder público infringe as regras da Constituição Federal de 1988, que não são obedecidas para assegurar os direitos dos cidadãos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Diante o exposto, concluímos que o novo tratamento constitucional em matéria ambiental foi um passo fundamental rumo à preservação de meio ambiente.

A partir daí, novas leis foram promulgadas e já tiveram uma concepção diversa daquela existente, ou seja, o poder público, juntamente com a coletividade, deixou de ter uma visão utilitarista do meio ambiente, partindo para uma visão mais preservacionista dos recursos naturais.

Salienta-se que a participação popular faz-se necessária e que cada um de nós assuma seu papel de sociedade sustentável, adotando atitudes concretas neste sentido. De nada valerá um arcabouço da legislação ambiental louvável, se este não for efetivamente colocado em prática.

Carla Cardoso.

terça-feira

Navios-tanque traficam água de rios da Amazônia


Navios-tanque traficam água de rios da Amazônia


Por Chico Araújo, da Agência Amazônia




BRASÍLIA – É assustador o tráfico de água doce no Brasil. A denúncia está na revista jurídica Consulex 310, de dezembro do ano passado, num texto sobre a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o mercado internacional de água. A revista denuncia: “Navios-tanque estão retirando sorrateiramente água do Rio Amazonas”. Empresas internacionais até já criarem novas tecnologias para a captação da água. Uma delas, a Nordic Water Supply Co., empresa da Noruega, já firmou contrato de exportação de água com essa técnica para a Grécia, Oriente Médio, Madeira e Caribe.

Conforme a revista, a captação geralmente é feito no ponto que o rio deságua no Oceano Atlântico. Estima-se que cada embarcação seja abastecida com 250 milhões de litros de água doce, para engarrafamento na Europa e Oriente Médio. Diz a revista ser grande o interesse pela água farta do Brasil, considerando que é mais barato tratar águas usurpadas (US$ 0,80 o metro cúbico) do que realizar a dessalinização das águas oceânicas (US$ 1,50).

Há trás anos, a Agência Amazônia também denunciou a prática nefasta. Até agora, ao que se sabe nada de concreto foi feito para coibir o crime batizado de hidropirataria. Para a revista Consulex, “essa prática ilegal, no então, não pode ser negligenciada pelas autoridades brasileiras, tendo em vida que são considerados bens da União os lagos, os rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seus domínio (CF, art. 20, III).

Outro dispositivo, a Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, atribui à Agência Nacional de Águas (ANA), entre outros órgãos federais, a fiscalização dos recursos hídricos de domínio da União. A lei ainda prevê os mecanismos de outorga de utilização desse direito. Assinado pela advogada Ilma de Camargos Pereira Barcellos, o artigo ainda destaca que a água é um bem ambiental de uso comum da humanidade. “É recurso vital. Dela depende a vida no planeta. Por isso mesmo impõe-se salvaguardar os recursos hídricos do País de interesses econômicos ou políticos internacionais”, defende a autora.

Segundo Ilma Barcellos, o transporte internacional de água já é realizado através de grandes petroleiros. Eles saem de seu país de origem carregados de petróleo e retornam com água. Por exemplo, os navios-tanque partem do Alaska, Estados Unidos – primeira jurisdição a permitir a exportação de água – com destino à China e ao Oriente Médio carregando milhões de litros de água.

Nesse comércio, até uma nova tecnologia já foi introduzida no transporte transatlântico de água: as bolsas de água. A técnica já é utilizada no Reino Unido, Noruega ou Califórnia. O tamanho dessas bolsas excede ao de muitos navios juntos, destaca a revista Consulex. “Sua capacidade [a dos navios] é muito superior à dos superpetroleiros”. Ainda de acordo com a revista, as bolsas podem ser projetadas de acordo com necessidade e a quantidade de água e puxadas por embarcações rebocadoras convencionais.

Há seis anos, o jornalista Erick Von Farfan também denunciou o caso. Numa reportagem no site eco21 lembrava que, depois de sofrer com a biopirataria, com o roubo de minérios e madeiras nobres, agora a Amazônia está enfrentando o tráfico de água doce. A nova modalidade de saque aos recursos naturais foi identificada por Farfan de hidropirataria. Segundo ele, os cientistas e autoridades brasileiras foram informadas que navios petroleiros estão reabastecendo seus reservatórios no Rio Amazonas antes de sair das águas nacionais.

Farfan ouviu Ivo Brasil, Diretor de Outorga, Cobrança e Fiscalização da Agência Nacional de Águas. O dirigente disse saber desta ação ilegal. Contudo, ele aguarda uma denúncia oficial chegar à entidade para poder tomar as providências necessárias. “Só assim teremos condições legais para agir contra essa apropriação indevida”, afirmou.

O dirigente está preocupado com a situação. Precisa, porém, dos amparos legais para mobilizar tanto a Marinha como a Polícia Federal, que necessitam de comprovação do ato criminoso para promover uma operação na foz dos rios de toda a região amazônica próxima ao Oceano Atlântico. “Tenho ouvido comentários neste sentido, mas ainda nada foi formalizado”, observa.

Águas amazônicas

Segundo Farfan, o tráfico pode ter ligações diretas com empresas multinacionais, pesquisadores estrangeiros autônomos ou missões religiosas internacionais. Também lembra que até agora nem mesmo com o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) foi possível conter os contrabandos e a interferência externa dentro da região.

A hidropirataria também é conhecida dos pesquisadores da Petrobrás e de órgãos públicos estaduais do Amazonas. A informação deste novo crime chegou, de maneira não oficial, ao Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), órgão do governo local. “Uma mobilização até o local seria extremamente dispendiosa e necessitaríamos do auxílio tanto de outros órgãos como da comunidade para coibir essa prática”, reafirmou Ivo Brasil.

A captação é feita pelos petroleiros na foz do rio ou já dentro do curso de água doce. Somente o local do deságüe do Amazonas no Atlântico tem 320 km de extensão e fica dentro do território do Amapá. Neste lugar, a profundidade média é em torno de 50 m, o que suportaria o trânsito de um grande navio cargueiro. O contrabando é facilitado pela ausência de fiscalização na área.

Essa água, apesar de conter uma gama residual imensa e a maior parte de origem mineral, pode ser facilmente tratada. Para empresas engarrafadoras, tanto da Europa como do Oriente Médio, trabalhar com essa água mesmo no estado bruto representaria uma grande economia. O custo por litro tratado seria muito inferior aos processos de dessalinizar águas subterrâneas ou oceânicas. Além de livrar-se do pagamento das altas taxas de utilização das águas de superfície existentes, principalmente, dos rios europeus. Abaixo, alguns trechos da reportagem de Erick Von Farfan:

O diretor de operações da empresa Águas do Amazonas, o engenheiro Paulo Edgard Fiamenghi, trata as águas do Rio Negro, que abastece Manaus, por processos convencionais. E reconhece que esse procedimento seria de baixo custo para países com grandes dificuldades em obter água potável. “Levar água para se tratar no processo convencional é muito mais barato que o tratamento por osmose reversa”, comenta.

O avanço sobre as reservas hídricas do maior complexo ambiental do mundo, segundo os especialistas, pode ser o começo de um processo desastroso para a Amazônia. E isto surge num momento crítico, cujos esforços estão concentrados em reduzir a destruição da flora e da fauna, abrandando também a pressão internacional pela conservação dos ecossistemas locais.

Entretanto, no meio científico ninguém poderia supor que o manancial hídrico seria a próxima vítima da pirataria ambiental. Porém os pesquisadores brasileiros questionam o real interesse em se levar as águas amazônicas para outros continentes. O que suscita novamente o maior drama amazônico, o roubo de seus organismos vivos. “Podem estar levando água, peixes ou outras espécies e isto envolve diretamente a soberania dos países na região”, argumentou Martini.

A mesma linha de raciocínio é utilizada pelo professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Paraná, Ary Haro. Para ele, o simples roubo de água doce está longe de ser vantajoso no aspecto econômico. “Como ainda é desconhecido, só podemos formular teorias e uma delas pode estar ligada ao contrabando de peixes ou mesmo de microorganismos”, observou.

Essa suposição também é tida como algo possível para Fiamenghi, pois o volume levado na nova modalidade, denominada “hidropirataria” seria relativamente pequeno. Um navio petroleiro armazenaria o equivalente a meio dia de água utilizada pela cidade de Manaus, de 1,5 milhão de habitantes. “Desconheço esse caso, mas podemos estar diante de outros interesses além de se levar apenas água doce”, comentou.

Segundo o pesquisador do Inpe, a saturação dos recursos hídricos utilizáveis vem numa progressão mundial e a Amazônia é considerada a grande reserva do Planeta para os próximos mil anos. Pelos seus cálculos, 12% da água doce de superfície se encontram no território amazônico. “Essa é uma estimativa extremamente conservadora, há os que defendem 26% como o número mais preciso”, explicou.

Em todo o Planeta, dois terços são ocupados por oceanos, mares e rios. Porém, somente 3% desse volume são de água doce. Um índice baixo, que se torna ainda menor se for excluído o percentual encontrado no estado sólido, como nas geleiras polares e nos cumes das grandes cordilheiras. Contando ainda com as águas subterrâneas. Atualmente, na superfície do Planeta, a água em estado líquido, representa menos de 1% deste total disponível.

A previsão é que num período entre 100 e 150 anos, as guerras sejam motivadas pela detenção dos recursos hídricos utilizáveis no consumo humano e em suas diversas atividades, com a agricultura. Muito disto se daria pela quebra dos regimes de chuvas, causada pelo aquecimento global. Isto alteraria profundamente o cenário hidrológico mundial, trazendo estiagem mais longas, menores índices pluviométricos, além do degelo das reservas polares e das neves permanentes.

Sob esse aspecto, a Amazônia se transforma num local estratégico. Muito devido às suas características particulares, como o fato de ser a maior bacia existente na Terra e deter a mais complexa rede hidrográfica do planeta, com mais de mil afluentes. Diante deste quadro, a conclusão é óbvia: a sobrevivência da biodiversidade mundial passa pela preservação desta reserva.

Mas a importância deste reduto natural poderá ser, num futuro próximo, sinônimo de riscos à soberania dos territórios panamazônicos. O que significa dizer que o Brasil seria um alvo prioritário numa eventual tentativa de se internacionalizar esses recursos, como já ocorre no caso das patentes de produtos derivados de espécies amazônicas. Pois 63,88% das águas que formam o rio se encontram dentro dos limites nacionais.

Esse potencial conflito é algo que projetos como o Sistema de Vigilância da Amazônia procuram minimizar. Outro aspecto a ser contornado é a falta de monitoramento da foz do rio. A cobertura de nuvens em toda Amazônia é intensa e os satélites de sensoriamento remoto não conseguem obter imagens do local. Já os satélites de captação de imagens via radar, que conseguiriam furar o bloqueio das nuvens e detectar os navios, estão operando mais ao norte.

As águas amazônicas representam 68% de todo volume hídrico existente no Brasil. E sua importância para o futuro da humanidade é fundamental. Entre 1970 e 1995 a quantidade de água disponível para cada habitante do mundo caiu 37% em todo mundo, e atualmente cerca de 1,4 bilhão de pessoas não têm acesso a água limpa. Segundo a Water World Vision, somente o Rio Amazonas e o Congo podem ser qualificados como limpos.




(Envolverde/ Agência Amazônia)

sexta-feira

Amazônia perdeu 247 km² de floresta em dois meses



O desmatamento na Amazônia em outubro e novembro de 2009 atingiu 247 quilômetros quadrados (km²) de floresta. Na comparação com os mesmos meses de 2008, houve queda de 72,5%.
Os números, divulgados hoje (4), são calculados pelo Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espacias (Inpe).

“Os dados são de queda significativa. Houve redução de 68% em um mês e 80% em outro”, avaliou o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.

Em outubro de 2008, o Inpe havia registrado 540 km² de desmate, em 2009 contabilizou 175 km². Já em novembro de 2008, a área desmatada foi de 356 km² contra 72 km² em 2009.

A medição do Deter considera as áreas que sofreram corte raso (desmate completo) e as que estão em degradação progressiva.

Segundo Minc, a cobertura de nuvens na região em 2009 foi menor que em 2008, o que permitiu que os satélites observassem áreas maiores de floresta.

“Ninguém pode dizer que não vimos o desmatamento porque estava tudo coberto de nuvens. Não é o caso, porque a nuvem abriu e mesmo assim verificamos que o desmatamento caiu.”

O Pará lidera o ranking do desmatamento acumulado nos dois meses, com 108 km² a menos de floresta em outubro e novembro. Mato Grosso aparece em seguida, com 50 km² desmatados. No Amazonas, o Inpe registrou 33 km² de derrubada somente em outubro. Na avaliação do ministro, o estado foi o “destaque negativo”, já que tradicionalmente não aparece nas primeiras posições entre os desmatadores.

O governo atribui a queda no desmatamento às operações de fiscalização e controle, realizadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Força Nacional de Segurança e às atividades da Operação Arco Verde, que oferece alternativas econômicas ao desmatamento ilegal.

“Esses são os primeiros números pós Arco Verde, que cobriu os 43 municípios mais desmatadores”, disse Minc.

Nos quatro primeiros meses do calendário oficial do desmatamento – de agosto a novembro – a redução entre 2008 e 2009 foi de quase 50%, com queda de 2.238 km² para 1.144 km² no acumulado medido pelo Deter.

Nesse ritmo, Minc acredita que será possível cumprir a meta de redução do desmatamento prevista na Política Nacional de Mudanças Climáticas muito antes do prazo.

“A meta é reduzir o desmatamento em 80% e chegar a 3,5 mil km² em 2020. Podemos alcançar essa meta ainda este ano, com nove ou dez anos de antecedência”, aposta.

“Podemos chegar em 2020 com redução de 95% do desmatamento em relação à década anterior”, completou.
Informações da Agência Brasil

sábado

Riqueza Subterrânea

Saiba quais as áreas de ocorrência, as características químicas e como se formam os aquíferos

Apesar de 65% da superfície da Terra ser coberta por água, 97% é salgada (mares e oceanos) e apenas 3% é doce. De toda a água doce disponível para consumo, 96% é proveniente de águas subterarâneas, sendo elas responsáveis pela garantia da sobrevivência de parte significativa da população mundial. No Brasil, cerca de 55% dos distritos são abastecidos por águas subterrâneas, segundo dados de 2000 do IBGE. Além de atender diretamente a população, esses recursos são utilizados na indústria, na agricultura, para irrigação, como fonte de águas minerais, de lazer etc.

O ciclo hidrológico é o movimento contínuo da água presente nos oceanos, continentes (superfície, solo e rocha) e na atmosfera. Esse movimento é alimentado pela força da gravidade e pela energia do Sol, que provocam a evaporação das águas dos oceanos e dos continentes.

Na atmosfera, o ciclo hidrológico forma as nuvens, que, quando carregadas, provocam precipitações em forma de chuva, granizo, orvalho e neve. Nos continentes, a água precipitada pode seguir diferentes caminhos:

1. Infiltra e percola (passagem lenta de um líquido através de um meio) no solo ou nas rochas, ressurgindo na superfície na forma de nascentes, fontes, pântanos, ou alimentando rios e lagos.
2. Flui lentamente entre as partículas e espaços vazios dos solos e das rochas, podendo ficar armazenada por um período variável, formando a zona saturada dos aquíferos, formações litológicas (solo e rocha sedimentar ou cristalina) capazes de armazenar água em seu interior e possibilitar a sua movimentação através de seus interstícios.

A água também escoa sobre a superfície, nos casos em que a quantidade precipitada é maior do que a capacidade de absorção do solo. Evapora, retornando à atmosfera. À evaporação das águas superficiais mais a transpiração das plantas dá-se o nome de evapotranspiração. Parte dela pode congelar, formando gelo nas montanhas e geleiras.

Apesar das denominações de água superficial, subterrânea e atmosférica, na realidade a água é uma só, que muda a sua condição de existência no tempo e no espaço. Aquíferos são rochas saturadas que permitem a circulação, o armazenamento e a extração de água. Quanto ao tipo de espaços vazios, podem ser classificados como: 1) Poroso: com água armazenada nos espaços entre os grãos criados durante a formação da rocha ou solo (rochas sedimentares). 2) Fissural (cristalino): a água circula pelas fissuras resultantes do fraturamento das rochas relativamente impermeáveis (rochas ígneas ou metamórficas). 3) Cársticos: formados em rochas carbonáticas, onde a circulação da água se dá em aberturas de dissolução de paredes e das fraturas (horizontais e verticais), criando verdadeiros rios subterrâneos (infográfico na pág. 19).

Os aquíferos também são classificados quanto à sua posição e estrutura em: 1) Livres ou freáticos: com localização próxima à superfície, estando suas águas submetidas à pressão atmosférica. São os mais comuns e explorados por meio de poços rasos ou de profundidade média. São encontrados em solos de alteração, planícies e rochas sedimentares aflorantes (aquíferos do Grupo Bauru). 2) Confinados: quando possuem duas camadas de confinamento (formações de menor permeabilidade) que submete as águas a uma pressão superior à atmosférica. Os poços tubulares profundos que captam suas águas podem apresentar artesianismo (água expelida pela boca do poço sem bombeamento, como no caso da porção central do Aquífero Guarani). 3) Semiconfinados: com situação intermediária entre os dois anteriores, podendo ser ora um, ora outro, dependendo de suas formações de confinamento.

Águas (ainda) limpas
De maneira geral, as águas subterrâneas possuem elevado padrão de qualidade físico-química e bacteriológica e, por serem naturalmente protegidas dos agentes de poluição e contaminação, essas águas dispensam, na maioria dos casos, tratamento físico-químico. Por estarem contidas nos aquíferos, essas águas normalmente apresentam características físico-químicas similares às da rocha aquífera e, em muitos casos, se encontram bastante salinizadas e impróprias ao consumo sem um tratamento específico. Este é o caso de parte das águas subterrâneas do famoso Aquífero Guarani (parte central) e dos aquíferos cristalinos do Nordeste brasileiro.

A quantidade volumétrica de água subterrânea que pode ser extraída de um aquífero está condicionada a uma série de fatores hidrogeológicos condicionantes. Assim, temos: 1) Embasamento cristalino com espesso manto de rochas alteradas: nesses contextos, os poços bem localizados e construídos captam águas subterrâneas das zonas de rochas fraturadas associadas ao manto de intemperismo relativamente mais espesso (de 10 a mais de 100 metros de espessura). As vazões mais frequentes situam-se entre 5 e 50 m3/h, de excelente qualidade para consumo. 2) Embasamento cristalino subaflorante: este domínio compreende uma extensão de rochas cristalinas e metamórficas, as quais são subaflorantes na zona semiárida do Nordeste. Os poços mais produtivos localizados nas zonas aquíferas são aqueles que atravessam várias fraturas, as quais funcionam como condutores hidráulicos. As vazões dos poços ali perfurados variam de 1 a 10 m3/h, tendo ocorrências de água com altos teores de sólidos totais dissolvidos superior a 2 mil mg/L em 80% dos casos. 3) Grandes bacias sedimentares: as rochas sedimentares ocorrem preenchendo bacias geológicas, depressões circundadas por rochas cristalinas, que ocupam domínios continentais. São elas: Amazonas, Parnaíba-Maranhão e Paraná. Também temos as chamadas bacias costeiras (Potiguar, Paraíba-Pernambuco, Alagoas-Sergipe), estruturas de afundamento tectônico tipo graben (Recôncavo, Tucano, Jatobá e Araripe), além de depósitos correlatos, sedimentos do Grupo Barreiras.

Das chamadas províncias hidrogeológicas do Brasil, a mais importante é a Bacia Geológica do Paraná, com três grandes sistemas aquíferos: Botucatu-Piramboia (também chamado de Guarani), Basaltos da Formação Serra Geral e os sedimentos do Grupo Bauru.

Contaminação indireta
As potencialidades de águas subterrâneas são muito variadas no País. Nas bacias sedimentares, poços com rebaixamento de 50 metros em seu nível estático produzem vazões de 250 a 500 m3/h, possibilitando abastecer até 50 mil pessoas por poço, com uma taxa per capita de 2 mil L/dia.

Nas rochas do embasamento cristalino com espesso manto de alteração, com produção por poço de até 50 m3/h temos possibilidade de abastecer uma população de até mil pessoas com 200 L/dia.

Os aquíferos são naturalmente protegidos da poluição e da contaminação, devido às baixas velocidades de infiltração e processos biológicos-físicos-químicos que ocorrem no solo e na zona não saturada. Porém, ao contrário das águas superficiais, uma vez ocorrida a poluição ou a contaminação, as baixas velocidades de fluxo subterrâneo tendem a promover uma recuperação muito lenta da qualidade. Dependendo do tipo do contaminante, essa recuperação pode levar anos, com custos muito elevados.

As fontes mais comuns de poluição e contaminação direta das águas subterrâneas são: 1) Deposição de resíduos sólidos no solo: descartes de resíduos provenientes das atividades industriais, comerciais e domésticas em depósitos a céu aberto, os lixões. Nessas áreas, a água da chuva e o líquido resultante do processo de degradação dos resíduos orgânicos (denominado chorume) tendem a se infiltrar no solo, carreando substâncias potencialmente poluidoras, metais pesados e organismos patogênicos. 2) Esgotos e fossas: o lançamento de esgotos diretamente sobre o solo ou a água, os vazamentos de sistemas coletores de esgotos e a utilização de fossas construídas de forma inadequada constituem as principais causas de contaminação de águas subterrâneas. 3) Atividades agrícolas: fertilizantes e agrotóxicos utilizados na agricultura podem contaminar as águas subterrâneas com substâncias como compostos organoclorados, nitratos, sais e metais pesados. A contaminação pode se dar, também, pelos processos de irrigação mal dimensionados, facilitando a entrada do elemento contaminante no aquífero. 4) Mineração: a exploração de alguns minérios, com ou sem utilização de substâncias químicas em sua extração, produz rejeitos líquidos e/ou sólidos que podem contaminar os aquíferos. 5) Vazamento de substâncias tóxicas: vazamentos de tanques em postos de combustíveis, oleodutos e gasodutos, além de acidentes no transporte de substâncias tóxicas, combustíveis e lubrificantes. 6) Cemitérios: fontes potenciais de contaminação da água, principalmente por micro-organismos.

Contaminação indireta
As formas mais comuns de poluição e contaminação indireta são: 1) Filtragem vertical descendente: poluição de um aquífero mais profundo pelas águas de um aquífero livre superior (que ocorre acima do primeiro). 2) Contaminação natural: provocada pela transformação química e dissolução de minerais, podendo ser agravada pelas ações antrópicas, tais como a salinização, presença de ferro, manganês, carbonatos e outros minerais associados à formação rochosa. 3) Poços mal construídos e/ou abandonados: poços construídos sem critérios técnicos, com revestimento corroído ou rachado, sem manutenção e abandonados sem o fechamento adequado (tamponamento), também podem contaminar as águas subterrâneas.
Entre os agentes antrópicos – elementos ou compostos químicos inorgânicos e orgânicos sintéticos perigosos mais comumente detectados no solo e subsolo e/ou águas subterrâneas por conta da ação humana, destacam-se: 1) Contaminantes inorgânicos não metálicos, tais como fósforo, selênio, nitrogênio, enxofre e flúor. 2) Metais tóxicos, tais como mercúrio, cromo, cádmio, chumbo e zinco. 3) Compostos orgânicos sintéticos do grupo BTEX (benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno), compostos aromáticos, fenóis, organoclorados diversos, voláteis, mais densos ou menos densos que a água, formando soluções multifásicas (DNAPL’s e LNAPL’s), hidrocarbonetos, entre outros. Esse contaminante tem origem industrial e afeta a saúde pública em teores muito baixos isto é, da ordem de partes por bilhão (PPB), até partes por trilhão (PPT), com efeitos metagênicos ou carcinogênicos.

Como resultado, na década de 80, desenvolveu-se uma verdadeira paranoia sobre essas fontes pontuais ou difusas, efetivas ou potenciais de degradação das águas subterrâneas, de tal forma que um recurso antes valorizado pela sua característica natural de potabilidade passou a ter qualidade suspeita até prova em contrário. Essa situação resultou, em grande parte, da falta de conhecimento dos processos bio-físico-químicos ambientais de atenuação que ocorrem “escondidos” no subsolo, e da pressão de mercado tanto de equipamentos como de assistência científica e profissional.